Tiago Sami Pereira, um músico de mão cheia que trocou Lisboa por Maçainhas

Mudou-se de malas e bagagens para o interior há cerca de seis anos, quando recebeu uma proposta para dar aulas de percurssão em Miranda do Douro. Tiago Sami Pereira estava longe de imaginar que seria ali que conheceria o amor da sua vida, Diana, que é natural da Guarda. Estava dado o pontapé de partida e, entretanto, rumou em direção a terras beirãs. Passou por Valhelhas, onde em conjunto com a mulher criou um grupo comunitário de percussão, e há sensivelmente dois anos comprou casa em Maçainhas (Belmonte).

Chegados à entrada de Maçainhas vemos Tiago Sami Pereira. De cigarro na mão, espera-nos junto à porta da sua garagem, que é também o seu espaço de trabalho. De pronto somos convidados a entrar no seu “mundo”. A visita guiada ao espaço cheio de história e instrumentos musicais, de todos os tipos e feitios, terminou junto à secretária onde está a preparar um novo trabalho. Nas paredes estão expostos vários cartazes, entre eles, do festival Bons Sons de 2015, onde foi desafiado a tocar a solo com o seu bombo e o seu nome figurou ao lado de grandes nomes da música portuguesa. Nascido em Olivais Sul (Lisboa), Tiago Pereira assume-se como freelancer e, apesar de tocar «várias coisas», o seu “grande amor” é mesmo o bombo. E a forma como o toca é um tanto ou quanto diferente do habitual: «Geralmente o bombo toca-se com uma moca, mas eu toco com um par de maquetas para explorar todo o instrumento», conta ao JB. Mas desengane-se se pensa que esta opção foi obra do acaso, pelo contrário foi uma necessidade. A tocar nos Roncos do Diabo há mais de uma década, na altura as gaitas de foles eram acompanhadas com bombo e caixa. «Não tinhamos duas pessoas, uma para tocar caixa e outra para tocar bombo. Comecei a desenvolver uma forma de tocar o bombo como se, ao mesmo tempo, também tocasse caixa», revela o instrumentista.

A faceta profissional, essa, foi fácil de descobrir e Tiago Pereira foi um miúdo que desde cedo soube que caminho queria seguir. Já na altura da preparatória, com os seus 13 anos, a área das artes o fascinava e as disciplinas que mais o cativavam eram educação musical ou desenho, por exemplo. Quando estava prestes a acabar o secundário, «aquilo que ambicionava era entrar numa escola de artes», confessa o músico, entre risos. «Uma escola de onde eu saísse com o diploma de artista, em que me davam a possibilidade de trabalhar as áreas da pintura, escultura, teatro, música», enumera Tiago Pereira, sublinhando que a sua pretensão «nada tinha a ver com a fama». Mas, na impossibilidade de entrar para uma instituição desse tipo, que em Portugal não existe, o instrumentista concorreu à Faculdade de Belas Artes de Lisboa, onde começou na área da Pintura. Daí seguiu para Design de Comunicação, pois «a comunicação e as artes gráficas eram duas coisas que me agradavam bastante», comenta. O bichinho das artes, misturando o teatro com a música e até com a pedagogia, sempre o acompanhou e nunca conseguiu desligar-se dele. «Aquilo que me agrada é mesmo comunicar e, neste caso, fazê-lo através de diferentes ferramentas dentro daquilo que é uma forma de expressão artística», revela Tiago Pereira.

Depois de ter vivido «muitos» anos em Almada, teve uma proposta para ir dar aulas de percussão para Miranda do Douro, conhecida como a “cidade museu” de Trás-os-Montes. «Na altura não foi uma decisão fácil, mas arrisquei», conta o músico, que diz ter-se adaptado «a este ritmo de vida diferente» das grandes cidades. Chegou a Maçainhas há dois anos, mas a troca da capital pelo interior deu-se há cerca de seis. Antes de arranjar casa naquela freguesia do concelho de Belmonte, Tiago Pereira andou por outras paragens: esteve em Valhelhas (Guarda), de onde é natural a sua esposa Diana, que conheceu quando dava aulas em Miranda do Douro. E embora seja “um menino da cidade”, o instrumentista já está há tempo suficiente na região para saber que «o grande problema do interior é que as pessoas continuam a partir», lamenta Tiago Pereira. Em Valhelhas criou, juntamente com a companheira, um grupo de percussão, que chegou a ter 25 pessoas: «Posso dizer que dessas, dez emigraram», revela o músico, dizendo que «por muita vontade que tenhamos em impulsionar e criar momentos dinâmicos, se não houver nenhuma oferta é natural que as pessoas não saiam» do aconchego das suas casas.

Sara Silva

(acompanhe a entrevista na íntegra na edição impressa do JB)

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